Uma voz ríspida me guia,e eu caminho por um corredor tomado de lama. Após caminhar um longo tempo finalmente vejo o seu fim e nele duas pessoas estão me esperando, assim que os vejo a voz em minha mente cessa. Zayn me olha com raiva enquanto abraça nossa mãe que em instantes se desmancha em seus braços, tento correr para socorre-la mas antes que eu faça isso também me desmancho me juntando a lama.
- Onde está todo mundo? -pergunto e sento na cama de forma rápida o assustando.
- Suponho que esteja dormindo ainda -ele diz e pousa a mão em minha coxa desnuda.
- É.. -sussurro.
- Nossos pais estão viajando, babe.
Assim que levanto, demoro um pouco para me lembrar dos acontecimentos que me trouxeram para seu quarto na noite passada. Seguro o lençol na altura dos meus seios e Zayn olha para meu corpo sorrindo, sinto uma especie de vergonha e não consigo esconder meu sorriso.
- Como se sente?
- Com fome e você?
- Estou legal, acabei de comer um sanduíche -ele responde sorrindo. -
- Que horas são?
- São oito da noite!
- Que dia é hoje? -pergunto assustada.
- Sábado. -ele diz calmamente.
- Zayn -dou um gritinho fino e ele revira os olhos.
- Você estava tão calma dormindo, não quis acabar com o momento.
- Sei porque está fazendo isso, você não quer que eu tenha aulas de boxe com o Jace!
- Fique a vontade com seu treinador, Yanna. -ele resmunga.
- Já estou a vontade com ele -digo e vou para meu quarto.
Estico a mão sentindo a temperatura do chuveiro e meu corpo se arrepia, despejo um pouco de shampoo nas mãos e esfrego meus cabelos crespos. Não fico muito tempo em baixo d'água pois tenho só dez minutos para chegar na academia de boxe, e o caminho até lá é de quinze minutos. Visto uma calça de moletom, um top preto e o casaco por cima. Jogo algumas mudas de roupas na mochila e logo estou pronta.
estou te esperando. 20:11
serão acrescentados 20 flexões por cada minuto do atraso! xx corre 20:15
Leio a mensagem de Jace e coloco o celular em cima da cama.
[...]
A corrida até a academia é cansativa mas me poupa do aquecimento, assim que entro vejo que Nate está no ringue, tiro as luvas de dentro da mochila e coloco alguns esparadrapos nos dedos antes de colocar ela.
- Cento e dez flexões. -ele diz com um tom nada gentil.
- Sério?
Desde que comecei as aulas nunca me atrasei e geralmente eu ria dos que faziam isso, agora entendo o porque dos olhares agressivos para Jace quando ele os manda fazer. Tiro as luvas e as deixo do meu lado começando as flexões, segundo meu treinador ele estava de bom humor hoje por isso tirou dez flexões do meu castigo.
- Você está dispersa hoje!
Me movimento para os lados escutando os gritos de Jace atrás de mim, enquanto me movo no ringue só consigo imaginar o que minha mãe faria se descobrisse que eu e Zayn fizemos o que fizemos, durante anos, bem em baixo do seu nariz.
- Yanna! -Jace diz mas é tarde.
Sou atingida por um Direto bem no nariz, o impacto do soco é tão forte que caio para trás batendo com a cabeça no ringue. Fecho os olhos sentindo a dor aguda e logo os abro novamente vendo Mike estender a mão para eu levantar, pego sua mão e levanto de forma rápida, o mesmo me abraça e se desculpa por qualquer coisa, digo para ele que estou bem e então desço do ringue indo até minhas coisas.
- Em dois anos você nunca beijou esse ringue.
- Acontece. -digo sem o olhar.
- Para eu te levar ao topo precisa confiar em mim, sabe disso não é?
- É, eu sei Jace.
- Então pode começar a falar -ele diz de forma divertida e eu dou um pequeno sorriso.
- Aqui é o único lugar que eu me sinto segura e se você me julgasse isso acabaria comigo!
- Para sua sorte, não tenho moral para julgar nem um cão sarnento!
- Qualquer pessoa sensata diria que eu sou louca.
- Nunca fui muito sensato.
Me sinto tão idiota em ter que fazer isso mas Jace tem razão, a base da nossa relação é a confiança e se eu não confiar nele em quem eu vou? Seus olhos negros me encaram e eu aperto meu nariz com força com o indicador.
- Você tomou uma surra, que tal um lanche? -ele sugere sorrindo.
- É o que eu preciso!
[...]
O trajeto até o restaurante é tranquilo, a música de fundo é bem conhecia por mim e serve para me animar um pouco. Durante a luta com Mike o peso na minha consciência era quase gritante, quando fui golpeada lembrei de tudo que passei nos orfanatos e comecei a me questionar o porque de eu estar arriscando minha vida dessa forma. Se alguém descobrir é para lá que eu vou voltar e sabe-se lá para onde vão me mandar.
- Então você viveu em lares adotivos?
- Sim, um pior que o outro! Até conhecer minha família. -digo e suspiro.
- Parece que você se entristeceu ao falar da sua família!
- Eles são as melhores pessoas que eu já conheci na minha vida, me deram o amor que eu nunca imaginei receber, me deram um lindo lar e todos os valores que eu não aprenderia nas ruas. Mas eu.. eu os magoei -meus olhos ardem ao lembrar.
- Você voltou a usar drogas?
- Não. Jamais faria isso! Foi pior.
- Não vejo nada pior que isso..
- Eu transei.
- E isso é ruim? Foi sem seu consentimento?
- Eu transei com, Zayn, meu irmão.
A surpresa em seu rosto é evidente o que me causa um forte frio na barriga, Jace e Zayn eram melhores amigos antes deles se socarem nos corredores da escola. Quando percebe as lágrimas em meu rosto Jace coloca sua mão em cima da minha, dou-lhe um sorriso amigável e então ele diz.
- Zayn é um bom menino, ele realmente deve gostar de você.
- Tenho dezessete anos, se eu contar para os meus pais eles certamente vão me mandar para o sistema novamente, e então eu vou ficar pulando de casa em casa, até meus 21.
- E se vocês não contarem?
- A culpa vai me sufocar eu sei, antes nosso relacionamento era composto de beijinhos e abraços mas agora é diferente, eu não o vejo com os mesmos olhos e ele também não.
- Yanna, não arrisca sua vida toda por um desejo. Eu já passei por isso e tudo que eu ganhei foi o eterno ódio dos meus pais.
- Como assim?
- Isso tudo parece uma puta ironia do destino mas.. Quando eu tinha quinze anos eu transei com minha irmã gêmea e semanas depois ela descobriu que estava grávida, Molly contou para nossos pais e eles levaram ela em uma clinica e tiraram o meu sobrinho dela, o meu filho. Eu apanhei durante horas, meus primos quebraram uma perna minha, eu fraturei vários ossos e depois disso me jogaram em uma vala. Demorei anos para me reerguer e durante dias fiquei pensando na Molly, eu sei que é doentio, é nojento, é errado. Mas com quinze anos ninguém vê isso como realmente é. A criança poderia ter nascido com um fardo que não era dela e sim nosso. -ele diz e eu me surpreendo por sua calma-






